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Barbara Durão
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Volume XVIII
(B) A Teoria da Libido

Libido é um termo empregado na teoria dos instintos para descrever a manifestação dinâmica da sexualidade. Já fora utilizado nesse sentido por Moll (1898) e foi introduzido na psicanálise pelo presente autor. O que se segue limita-se a uma descrição dos desenvolvimentos por que a teoria dos instintos passou na psicanálise, desenvolvimentos que ainda se acham progredindo.
O Contraste entre os Instintos Sexuais e os Instintos do Ego. - A psicanálise cedo deu-se conta de que todas as ocorrências mentais devem ser vistas como construídas na base de uma ação recíproca das forças dos instintos elementares. Isso, contudo, acarretou uma situação difícil, visto a psicologia não incluir nenhuma teoria dos instintos. Ninguém podia dizer o que era realmente um instinto, deixava-se a questão inteiramente ao capricho individual, e todo psicólogo tinha o hábito de postular quaisquer instintos, em qualquer número que escolhesse. A primeira esfera de fenômenos a ser estudada pela psicanálise compreendia o que era conhecido como neurose de transferência (histeria e neurose obsessiva). Descobriu-se que seus sintomas sucediam pelo fato de os impulsos instintuais sexuais serem rejeitados (reprimidos) pela personalidade do sujeito (o seu ego), encontrando pois expressão por caminhos tortuosos através do inconsciente. Esses fatos podiam ser encontrados traçando-se um contraste entre os instintos sexuais e os instintos do ego (instintos de autopreservação), o que estava de acordo com o dito popular de serem a fome e o amor que fazem o mundo girar: a libido era a manifestação da força do amor, no mesmo sentido que a fome o era do instinto autopreservativo. A natureza dos instintos do ego permaneceu por então indefinida e, como todas as outras características do ego, inacessível à análise. Não havia meio de decidir se seria de supor existirem diferenças qualitativas entre as duas classes de instintos e, em caso afirmativo, quais seriam.
A Libido Primitiva. - C. G. Jung tentou resolver essa obscuridade seguindo linhas especulativas, pressupondo existir uma só libido primitiva que podia ser sexualizada ou dessexualizada e que, assim, em sua essência, coincidia com a energia mental em geral. Essa inovação era metodologicamente discutível, provocou grande confusão, reduziu o termo 'libido' ao nível de um sinônimo supérfluo e, na prática, defrontava-se ainda com a necessidade de distinguir entre libido sexual e assexual. Não se iria escapar à diferença entre os instintos sexuais e os instintos com outros objetivos por meio de uma nova definição.
Sublimação. - Um atento exame das tendências sexuais, que por si mesmas eram acessíveis à psicanálise, nesse meio tempo conduziria a algumas descobertas notáveis e pormenorizadas. O que se descreve como instinto sexual mostra ser de uma natureza altamente complexa e sujeita a decompor-se novamente em seus instintos componentes. Cada instinto componente é inalteravelmente caracterizado por sua fonte, isto é, pela região ou zona do corpo da qual sua excitação se deriva. Cada um deles possui, ademais, como aspectos distinguíveis, um objeto e um objetivo. O objetivo é sempre a descarga acompanhada pela satisfação, mas é capaz de ser mudado da atividade para a passividade. O objeto acha-se menos estreitamente ligado ao instinto do que se supôs a princípio; é facilmente trocado por outro e, além disso, um instinto que possuía um objeto externo pode ser voltado para o próprio eu do sujeito. Os instintos separados podem permanecer independentes uns dos outros ou - de um modo ainda inexplicável - combinar-se e fundir-se uns com os outros, para realizar um trabalho em comum. Podem também substituir-se mutuamente e transferir sua catexia libidinal uns para os outros, de forma que a satisfação de um determinado instinto pode assumir o lugar da satisfação de outros. A vicissitude mais importante que um instinto pode experimentar parece ser a sublimação; aqui, tanto o objeto quanto o objetivo são modificados; assim, o que originalmente era um instinto sexual encontra satisfação em alguma realização que não é mais sexual, mas de uma valoração social ou ética superior. Esses diferentes aspectos ainda não se combinam para formar um quadro integral.
Narcisismo. - Um progresso decisivo foi realizado quando se aventurou a análise da demência precoce e outros distúrbios psicóticos e assim o exame foi iniciado do próprio ego, que até então fora conhecido apenas como instância da repressão e da oposição. Descobriu-se que o processo patogênico na demência precoce é a retirada da libido dos objetos e sua introdução no ego, ao passo que os sintomas clamorosos da moléstia surgem dos vãos esforços da libido para encontrar um caminho de volta aos objetos. Mostrou-se assim ser possível à libido de objeto transformar-se em catexia do ego e vice-versa. Uma reflexão mais detida demonstrou que foi preciso presumir que esse processo ocorre na maior escala e que o ego deve ser encarado como um grande reservatório de libido, do qual a libido é enviada para os objetos, e que sempre está pronto a absorver a libido que flui de volta dos objetos. Assim, os instintos de autopreservação também eram de natureza libidinal: eram instintos sexuais que, em vez de objetos externos, haviam tomado o próprio ego do sujeito como objeto. A experiência clínica familiarizou-nos com as pessoas que se comportam de uma maneira notável, como se estivessem enamoradas de si mesmas, e essa perversão recebeu o nome de narcisismo. A libido dos instintos autopreservativos foi então descrita como libido narcísica e reconheceu-se que um elevado grau desse auto-amor constituía o estado de coisas primário e normal. A fórmula primitiva estabelecida para as neuroses de transferência conseqüentemente exigia ser modificada, embora não corrigida. Era melhor, em vez de falar de um conflito entre instintos sexuais e instintos do ego, falar de um conflito entre libido de objeto e libido de ego, ou, de vez que era a mesma a natureza desses instintos, conflito entre as catexias de objeto e o ego.
Abordagem Aparente às Opiniões de Jung. - À vista disso, parecia como se o lento processo da pesquisa psicanalítica estivesse seguindo os passos da especulação de Jung sobre uma libido primitiva especialmente porque a transformação da libido de objeto em narcisismo necessariamente portava consigo certo grau de dessexualismo ou abandono dos objetivos especificamente sexuais. Não obstante, há de se ter em mente que o fato de os instintos autopreservativos do ego serem reconhecidos como libidinais não prova necessariamente que não existam outros instintos funcionando no ego.
O Instinto Gregário. - Sustentou-se, em muitos grupos, que existe um 'instinto gregário' especial, inato e não mais analisável, que determina o comportamento social dos seres humanos e impele os indivíduos a se reunirem em comunidades maiores. A psicanálise está em contradição com essa opinião. Mesmo que o instinto social seja inato, ele pode, sem qualquer dificuldade, ser remetido ao que originalmente constituíam catexias de objeto libidinais e pode ter-se desenvolvido na infância do indivíduo como uma formação reativa contra atitudes hostis de rivalidade. Ele se baseia num tipo peculiar de identificação com outras pessoas.
Impulsos Sexuais Inibidos quanto ao Objetivo. - Os instintos sociais pertencem a uma classe de impulsos instintuais que prescindem serem descritos como sublimados, embora estejam estreitamente relacionados com estes. Não abandonaram seus objetivos diretamente sexuais, mas são impedidos, por resistências internas, de alcançá-los; contentam-se com certas aproximações à satisfação e, por essa própria razão, conduzem a ligações especialmente firmes e permanentes entre os seres humanos. A essa classe pertencem em particular as relações afetuosas entre pais e filhos, que originalmente eram inteiramente sexuais, os sentimentos de amizade e os laços emocionais no casamento que tem sua origem na atração sexual.
Reconhecimento de Duas Classes de Instintos na Vida Mental. - Embora a psicanálise via de regra se esforce por desenvolver suas teorias tão independentemente quanto possível das outras ciências, é contudo obrigada a procurar uma base para a teoria dos instintos na biologia. Com fundamento em uma consideração de longo alcance dos processos que empreendem construir a vida e que conduzem à morte, torna-se provável que devamos reconhecer a existência de duas classes de instintos, correspondentes aos processos contrários de construção e dissolução no organismo. Segundo esse ponto de vista, um dos conjuntos de instintos, que trabalham essencialmente em silêncio, seriam aqueles, cujo objetivo é conduzir a criatura viva à morte e, assim, merecem ser chamados de 'instintos de morte'; dirigir-se-iam para fora como resultado da combinação de grande número de organismos elementares unicelulares e se manifestariam como impulsos destrutivos ou agressivos. O outro conjunto de instintos seria o daqueles que nos são mais bem conhecidos na análise: os instintos libidinais, sexuais ou instintos de vida, que são mais bem abrangidos pelo nome de Eros; seu intuito seria constituir a substância viva em unidades cada vez maiores, de maneira que a vida possa ser prolongada e conduzida a uma evolução mais alta. Os instintos eróticos e os instintos de morte estariam presentes nos seres vivos em misturas ou fusões regulares, mas 'desfusões' também estariam sujeitas a ocorrer. A vida consistiria nas manifestações do conflito ou na interação entre as duas classes de instintos; a morte significaria para o indivíduo a vitória dos instintos destrutivos, mas a reprodução representaria para ele a vitória de Eros.
A Natureza dos Instintos. - Essa visão nos permitiria caracterizar os instintos como tendências inerentes à substância viva no sentido da restauração de um estado anterior de coisas, isto é, seriam historicamente determinados, de natureza conservadora e, por assim dizer, expressão de uma inércia ou elasticidade presente no que é orgânico. Ambas as classes de instintos, tanto Eros quanto o instinto de morte, segundo este ponto de vista, teriam estado operando e trabalhando um contra o outro desde a primeira origem da vida.

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